Aparentemente, tenho um corpo
Sou uma pessoa muito pouco ligada a certos aspectos da minha materialidade corporal. Essa é uma forma bastante ridícula de dizer que sou sedentária.
Nunca gostei de praticar esportes, tenho aversão a qualquer tipo de atividade física. A única atividade que alguns consideram exercício e que eu realmente gosto de fazer - talvez o fato da minha espécie ter evoluído para isso tenha alguma relação - é caminhar. Não que eu ande horrores por aí, estou longe de uma boa quilometragem diária. Mas acho a caminhada uma atividade prazerosa, especialmente se não for realizada na intenção de exercitar o corpo e sim espairecer a cabeça.
Fato é que sou aquele tipo de sedentária que a maioria das pessoas detesta, a famigerada magra de ruim. Magra de ruim pois não engordo mesmo nunca tendo feito nenhum tipo de restrição alimentar, nem mover uma palha para queimar algumas calorias. Mas não sou nenhuma máquina termogênica1, o segredo para tudo isso está em um equilíbrio na ingestão de alimentos. Tenho uma boa consciência alimentar e mastigo vagarosamente. Suspeito que esse segundo detalhe seja muito mais importante do que os afobados gostariam de acreditar.
Para ser ainda mais irritante, revelo que além de esbelta também sou muito saudável. Dores de cabeça? Não. Doenças mentais? Tive minhas fases melancólicas, o que considero ser parte da experiência humana - principalmente se você vive em nossa era com mais de dois neurônios e acesso à informação - mas nunca precisei tomar remédios. Insônia? Mas é nunca, durmo como um neném. Problemas de coluna? Nunca tive, perfeita. Ah, nem uma gastritezinha? Não, graças a DEUS. Mobilidade intestinal? Minha digestão é perfeita, cago mais bonito que o seu cachorro. Cólicas menstruais? Mal sinto, desculpa!2
Compreende como é fácil pra mim esquecer completamente que possuo um corpo? Vivo na minha cabeça e esqueço desse maravilhoso veículo que é o meu corpo físico. Sou muito grata por ele. Mas eu tenho plena consciência da minha displicência e há alguns dias estou vivendo na pele a experiência de conversar com ele e constatar sua insatisfação comigo. Pela primeira vez... estou sofrendo de bruxismo.
Oh, que horror.
O meu sedentarismo cobra um alto preço que é a tensão muscular permanente em meus trapézios e cervical. Só que, insuportável que sou, tenho uma tolerância muito grande para a dor. Não percebo que meus ombros são uma tora de madeira; é preciso uma noite muito da mal dormida para que se instale uma crise álgica de fato. Quando isso acontece (algumas poucas vezes nas minhas mais de três décadas de vida, diria que umas 5 ocasiões nos últimos seis anos), é muito doloroso e a dor irradia até o dedo mindinho. Então, apesar de ser muito sem noção e demorar para me tocar que estou COMPLETAMENTE TRAVADA, eu acho que posso dizer que conheço a experiência da tensão muscular.
Mas nada me preparou para a tensão mandibular. É cruel, muito cruel. Uma dor que castiga a alma pois acaba com o melhor momento do dia, o meu soninho sagrado. Acordar e não me sentir descansada, com dor de cabeça de tanto apertar, uma sensação de peso generalizado. Tenebroso. Sinto muito por todos que convivem com essa condição. Espero não fazer parte desse grupo por muito tempo, estou tomando medidas para encerrar essa experiência.
Fazendo yoga antes de dormir, massagens, cházinho, óleo essencial de lavanda. Eu, que sempre fui a melhor dormidora do mundo. Adormeço rápido, mas tenho acordado podre no dia seguinte. Talvez isso tenha a ver com umas outras coisitas espirituais com nome e sobrenome. Mas falar sobre isso já seria me abrir demais com vocês.
Amei falar esse bando de bobagem aqui. Rezem pela minha mandíbula, amigos. Quem sabe amanhã acordo plena!
Existem muitos magros de ruim que são favorecidos por um maior percentual de gordura marrom no corpo. Os adipócitos marrons possuem elevadas quantidades de termogenina, uma proteína que atua interrompendo o fluxo de elétrons da cadeia respiratória, gerando calor ao invés de ATP (que quando sobra vira outro tipo de gordurinha de reserva, a sua pança mesmo). Essas pessoas costumam ter uma temperatura corporal um pouco mais alta que o normal; definitivamente não é o meu caso.↩
Precisava fazer um adendo e explicar que já sofri com doenças dermatológicas que abalaram completamente a minha cabecinha, foram experiências tenebrosas. Mas escrever isso aí estragaria toda a bossa que eu estava fazendo nesse parágrafo.↩
Quer comentar algo? Envie uma mensagem no livro de visitas ou, melhor ainda, me escreva um e-mail. Será um prazer ler o que você tem a dizer!