Garrafas ao mar

Marinheiro só

Eu não sou daqui Eu não tenho amor Eu sou da Bahia De São Salvador

Eu tinha acabado de ler o post "Só", da minha amiga balzaquiana1, quando bati os olhos nas belas fotos de barquinhos que o th tirou. Uma coisa juntou com a outra e minha mente começou a puxar a letra dessa maravilhosa cantiga.

Me vejo no quintal da escola onde fiz o Jardim III. Batendo palminhas na roda de capoeira; os tios rodando e fazendo piruetas muito loucas, enquanto eu focava no som do berimbau e do caxixi - como pode sair um som tão lindo de uma única corda? Eu amava as aulas de capoeira e as cantigas de roda. Estava cercada de crianças e me sentia à vontade. Naquela época eu ainda era filha única, uma criança cheia de si, metida e mandona - já precisaram chamar a atenção dos meus pais pois os garotos estavam se sentindo oprimidos na minha mão e de outras coleguinhas.

Recordo da sensação gostosa que era estar sempre cercada da minha família e do conforto, da segurança que sentia. Família de comercial de margarina; eu recebia atenção e muito, muito amor sob demanda. Aquela menina nunca poderia imaginar que viveria tão só quanto eu vivo, muito menos que conseguiria não somente suportar, como apreciar a solidão.

Quase vinte anos depois, embarcava numa aventura e me mandava pro outro lado do mundo sozinha. Nesse dia estava fazendo uma escala em Milão, onde eu tive a minha primeira (e espero que última) crise de ansiedade grave. Jurava que ia morrer. Por que inventei essa história de virar nômade2? Tinha certeza de que o avião iria cair. Aproveitei para tomar sorvete, comer uma pizza, me sentir muito pobre ao lado de uma população fashionista e ficar emocionada com a suntuosidade do Duomo. Ah, e me irritar com a quantidade insana de pombos naquela praça.

Coloquei essa música pra tocar e chorei.

Eu não sou daqui Eu não tenho amor

Já tinha passado semanas longe de casa, me conectando com o mar português. Foi tempo o suficiente para que a solidão se evidenciasse e eu me desse conta de que estava prestes a encarar um desafio de outro patamar. Estaria sozinha. Sozinha mesmo. Não sozinha de ir ao cinema sozinha. De ir à praia sozinha. De almoçar num restaurante sozinha. Nem mesmo de viajar sozinha. Ih, isso tudo já era normal pra mim. Seria estar sozinha nível: não conheço ninguém neste continente e não há nada que me conecte a ele além da minha vontade de viver aqui. Nem sei ler esse alfabeto bonito, nem falar essa língua tonal. Hoje, observando a vida pacata das pessoas com quem convivo, vejo o quão corajosa e maluca eu fui. O que estava buscando desbravar?

Aprendi a estar só na marra. Eu, que me achava uma senhora adulta muito da independente, me reconheci enquanto animal social que nós humanos somos. Socialização é uma necessidade fisiológica, minha gente. O corpo sente, e sente rápido. Fico até com pena de lembrar do quanto eu sofri durante meu desbravamento; eu não fazia ideia do que estava por vir. Afinal, essa experiência foi só uma prévia da verdadeira solidão que eu experimentaria no futuro. A solidão que vivi nos últimos anos e que em menor medida vivo hoje.

Ô, marinheiro, marinheiro Quem te ensinou a nadar Foi o tombo do navio Ou foi o balanço do mar?

Às vezes estou muito borocoxô e me lembro que a solitária é a punição mais temida dentro de uma penitenciária. Que pessoas privadas de liberdade têm uma vida social muito mais plena que a minha. E então me dou conta do quão forte minha cabecinha tem sido pra dar conta de tudo isso. É uma fase, com previsão de melhora, mas ainda assim, dureza. A didática do balanço do mar, enquanto professor, é questionável. Mas fato é: tem me ensinado e estou aqui, nadando e jogando minhas garrafas.

Pois é, meus amigos. A essa altura vocês já devem ter ligado os pontos. O nome do blog é Garrafas ao mar... A minha ficha só caiu lá pra metade desse texto. Incrível como o inconsciente encontra meios pra comunicar o que precisa - estou muito emocionada aqui, que coisa bonita.

Lá vem, lá vem Ele vem faceiro Todo de branco Com seu bonézinho

Depois de tanto navegar completamente só por aí, o marinheiro aprende a aproveitar as oportunidades de conexão que se apresentam quando coloca os pés na terra. Tais momentos viram uma grande festa! É assim que eu busco apreciar minhas amizades e todos os contatos humanos generosos que se manifestam em minhas andanças solitárias.

Que delícia e que doloroso escrever esse texto! Obrigada pela leitura ❤‍🩹

Quer comentar algo?

Envie uma mensagem no livro de visitas ou, melhor ainda, me escreva um e-mail. Será um prazer ler o que você tem a dizer!
  1. É uma expressão usada para se referir à nós, mulheres trintonas. Surgiu após a publicação do livro A Mulher de Trinta Anos (1831-32), escrita pelo francês Honoré de Balzac.

  2. Lancei tendência antes de ser mainstream, pré-pandemia, tá, amores?