Morte em vida
Escrevo após passar um final de semana bem solitário. Estive mais introspectiva nos últimos dias, mas depois de tanto tempo sem conversar pessoalmente com outro ser humano (7 dias), senti um pouco a urgência de socializar e me divertir. Só que não tinha ninguém para chamar. Meus amigos mais próximos não estavam na cidade e não quis me colocar naquela situação de sondar os preguiçosos e receber uma desculpa qualquer. Ah, como sinto falta de tempos em que eram todos mais espontâneos e disponíveis.
Estou acostumada com a solidão e somos parcialmente amigas, embora ela me assombre com maior frequência do que eu gostaria. O que ocorre é que vivo sozinha, não há nenhuma família onde moro e não me relaciono amorosamente com ninguém (nem é algo que eu almeje). Isso significa que, diferente de 100% dos meus amigos, eu não desfruto da convivência com outras pessoas diariamente. Eles precisam dividir a bateria social deles em vários pedacinhos; já eu preciso encontrar maneiras de gastar a minha com estranhos na rua. Busco me alimentar dos sorrisos e gentilezas das pessoas com quem esbarro ao longo do dia.
Estava refletindo sobre como cheguei nesse ponto. Eu nunca fui uma pessoa popular, mas na minha vida adulta tive a alegria de fazer boas amizades e nutrir contatos com colegas de faculdade por muitos anos. Muitos amigos acabaram se mudando para São Paulo1 ou para o exterior; outros, na medida que envelhecemos, foram se tornando cada vez menos disponíveis. Não por causa de filhos - ainda não estamos nessa fase. Mas os sinto muito cansados e sem tanto ânimo pra se divertir, naturalmente por motivos de capitalismo tardio.
Agora, um fator agravante de todo esse quadro é o seguinte: abandonei o Instagram. Mesmo com a redução considerável do meu círculo e da iniciativa do pessoal para marcar encontros, volta e meia me chamavam para algo e vinham puxar papo. Desde que eu parei de interagir com os stories das pessoas (isso pois já não publicava nada há mais tempo), parece que esqueceram completamente da minha existência. A sensação é de uma morte em vida. Silêncio absoluto. Só os mais íntimos seguiram me procurando.
Poderiam argumentar que também preciso tomar a iniciativa, não ficar sentada esperando que as pessoas se lembrem de mim. Mas, sinceramente, tinha expectativa de que meus amigos sentissem a minha falta; não estivessem com a mente tão carcumida por horas diárias de reels; não necessitassem de um avatar virtual para manter uma interação comigo. É claro que, sentindo a falta deles, eu entrei em contato e busquei notícias. Mas virou uma via de mão única. Por mais amor que eu tenha a essas pessoas, meu coração dói um bocado quando sinto que falta reciprocidade no empenho para manter uma amizade viva.
Não busco, com esse relato, simplesmente desabafar sobre a redução do meu círculo de amizades. Suspeito que muitos blogueiros aqui também fizeram essa mudança e abandonaram essa praga há mais tempo que eu, que parei de entrar há seis meses. Talvez tenham sentido o mesmo esquecimento? Como lidam com isso? Apreciaria muito qualquer troca a respeito dessa questão.
Dito tudo isso, reforço que abandonar o Instagram foi uma das melhores decisões que já tomei na vida. Recomendo!
Que cidade desgraçada, gente. Abaixo São Paulo! Pare de roubar meus amigos! Adoro te visitar mas, por favor, dá um tempo.↩
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